O Football Benchmark acabou de publicar o seu Relatório Anual de Valorização de Clubes Europeus.
Nele, contém:
- 32 Clubes.
- 11 países.
- €72.6 mil milhões em Enterprise Value agregado.
E Portugal?
2 Clubes nessa lista.
Apenas 2.
O que pretendo com este texto é, primeiramente, desmistificar muitos títulos charmosos, mas que sāo (muitas vezes) menos entendíveis por quem os lê, pelo adepto que adora Futebol e os seus Clubes.
Porque, no final, sāo esses que fazem a máquina seguir o seu trabalho.
Depois, contribuir para a discussāo e reflectir em como é importante ter estas discussōes na mesa, a toda a hora.
Vamos a isso!
O Que É o Enterprise Value – e Porque é Que Importa?
Antes de falar de números, é preciso perceber o que estamos a medir.
Só assim será possível perceber, posteriormente, onde vamos impactar as nossas Estratégias, para voltar a medir (teoricamente, de forma favorável).
Assim, o Enterprise Value (EV), ou Valor de Empresa em Português, é a métrica Financeira mais completa para avaliar o valor Total de uma Organização.
Importa, agora, também explicar o que nāo é:
- Não é o lucro anual.
- Não é o Orçamento de Transferências.
- Não é o valor dos Jogadores no Plantel.
É, assim, a soma de tudo:
- O Valor de Mercado do Capital próprio (o que os accionistas detêm)
- Mais a Dívida Total do Clube
- Menos o Cash disponível em Caixa
Em termos simples, é o que custaria comprar um Clube na totalidade, assumindo todas as suas Responsabilidades Financeiras.
É, também, uma métrica neutra permite comparar Clubes com Estruturas de Capital completamente diferentes.
Um Clube muito endividado e um Clube sem dívida podem ter o mesmo EV se o seu potencial de geração de valor for equivalente.
Por exemplo, o Chelsea FC apresentou dados devastadores nos últimos anos (mesmo com a venda da Equipa Principal Feminina para uma outra Empresa do mesmo Grupo detentor do Clube), mas tem capacidade de gerar cerca de 500M Euros nos últimos anos em Revenue (Receitas).
Outros, eventualmente, terāo os mesmos dados negativos mas sem capacidade de alcançar valores similares de Receitas.
Naturalmente, estes dados sāo o exemplo de algo que terá impacto na sua EV.
Por isso mesmo, é a métrica preferida de Investidores, Fundos, e Analistas de Negócio quando avaliam Ativos no Futebol.
O Que Significa Um Múltiplo de 2.6x vs. 6.7x?
Vamos começar a mergulhar sobre o lado Financeiro dos Clubes.
Imagina 2 Clubes:
- Clube A gera €200M de Receita por ano. O seu EV é €520M. Múltiplo: 2.6x.
- Clube B gera €1,161M de Receita por ano. O seu EV é €7,725M. Múltiplo: 6.7x.
O Clube B não é apenas mais rico.
O Mercado acredita que cada euro de Receita do Clube B vale mais do que o euro do Clube A.
Porquê?
Aqui está o diferencial de Clube para Clube.
Pode ser o contexto (a Liga onde está inserido)
Pode ser porque o Clube B tem Marca Global.
Ou, porque tem Estádio próprio.
Porque tem Receitas Comerciais que crescem independentemente dos Resultados Desportivos. Ou, capacidade de se reinventar, de atrair Patrocinadores Premium, de Monetizar uma Fanbase de 455 milhões de seguidores.
Esse é o Real Madrid: €7,725M de EV. Múltiplo de 6.7x.
O Mercado não está apenas a pagar pelo presente.
Está a pagar pela capacidade de crescer no futuro.
Segundo o Relatório, os Clubes dos lugares 21 a 32, onde estão SL Benfica e FC Porto, operam entre 2.6x e 4.0x de múltiplo.
Os Top 10 operam entre 5.2x e 6.7x.
Não há sobreposição.
Pela primeira vez na história deste Relatório, o fosso entre os dois Grupos é total e absoluto.
E nāo parece que vai terminar aqui.
Benfica e Porto: Porque Estão Lá e os Outros Não?
Esta é a pergunta certa, principalmente no contexto de Portugal.
Principalmente, no contexto de Sporting campeāo por 3 vezes nos últimos anos.
Porque não vemos o Sporting, Braga, ou Vitória.
São apenas dois Clubes Portugueses.
Os mesmos dois, aliás, presentes em todas as 11 edições do Relatório desde 2016.
Os únicos dois Clubes fora das “Big Five” ligas com esse registo de presença contínua.
A resposta: a Estrutura.
O Benfica (#21, €756M, +21% YoY) e o Porto (#27, €599M, +4%) têm algo que os diferencia do resto do Futebol português: Receita (mais) consistente e diversificada.
Em suma:
- Não dependem apenas de Bilheteira ou de vender um Jogador por Temporada.
- Têm Receitas de Televisão UEFA com regularidade, porque estão sistematicamente na Champions League ou Europa League.
- Têm Receita Comercial com expressão Europeia.
- E têm, sobretudo, Transferências de alto valor, que são o verdadeiro motor do seu Modelo Financeiro.
O Relatório é claro nos Critérios de Seleção:
- Top 50 europeu em Receitas Operacionais ✅
- Top 50 no coeficiente UEFA de 5 anos ✅
É um teste duplo. E exigente.
O Sporting aparece nos Runners-Up, a sete Clubes do Top 32, com EV médio de €403M nesse grupo.
Está na porta. Mas ainda não entrou.
Porquê?
Uma palavra apenas: consistência.
O Braga? Ainda mais longe.
Em termos de Receita e Coeficiente UEFA acumulado, a distância é ainda considerável.
A Realidade que Ninguém Quer Ouvir
Portugal representa 1.9% do EV Total Europeu.
Este número é de difícil encaixe.
Inglaterra? 41.6%.
Com 9 Clubes.
Aqui percebemos a realidade: a diferença não é apenas de escala, mas principalmente de Modelo.
A Liga Portuguesa distribui os Direitos de Transmissão Televisiva de forma infinitamente inferior à Premier League.
Um Clube do meio da Tabela Inglesa recebe mais em Direitos Televisivos por época do que os melhores Clubes Portugueses.
Um clube que desce ao Championship recebe do Mecanismo de Apoio mais do que a todos os Clubes em Portugal têm como Budget Anual.
Isto tem uma consequência direta: os Clubes Portugueses não só nāo conseguem reter os seus melhores Ativos Desportivos, como estāo sempre dependentes de terceiros para conseguir ter algum tipo de crescimento Financeiro.
Sem nunca ser constante, naturalmente.
Cada vez que o Benfica vende Darwin Núñez ao Liverpool por €80M, ou o Porto vende Fábio Vieira ao Arsenal, estão a executar o único Modelo Sustentável que têm disponível:
- Produzir, Desenvolver, Exportar, Reinvestir.
Atençāo: é um Modelo de Excelência na Cadeia de Valor do Futebol Europeu.
Ninguém o tem feito como Portugal.
Mas, é importante perceber que também um tecto Estrutural de Valorização.
Porque um Clube cujo principal Produto são os Jogadores que vende, nunca vai acumular o Squad Value (Valor de Plantel) dos Clubes que os compram.
Então Onde Está o Tecto de Vidro?
O Relatório mostra que o Benfica tem um múltiplo de Valorização na faixa dos 2.6x a 4.0x.
De onde sāo retirados estes dados de Valorizaçāo, é algo que nāo dispomos.
Mas a questāo é: como melhorar?
Bom, para sair dessa faixa e entrar na dos 11-20 (2.9x a 5.4x), o Benfica precisaria de uma combinação de:
✅ Presença regular na Champions League: Consistente, nos Quartos-de-Final ou mais.
✅ Crescimento das Receitas Comerciais: parcerias de Naming Rights, Expansão Digital, Monetização da Marca além-fronteiras.
✅ Estádio próprio com capacidade e versatilidade: o Estádio da Luz cumpre, e é um ativo diferenciador. Mas, como melhorar o que se faz no mesmo espaço? É versátil o suficiente? Segura as pessoas e fās para além dos 90 minutos de Jogo?
✅ Gestão Financeira disciplinada: o rácio Custos com Pessoal / Receita é crítico. Clubes com rácios acima de 70-80% são penalizados na Valorização. O Benfica tem tido uma Estratégia que coloca extrema pressāo neste rácio.
O Porto, por seu lado, tem potencial: mas a escala de Receita é menor, e a dependência do Modelo de Transferências é ainda mais acentuada.
A seu favor tem, de momento, colocado uma Gestāo Financeira mais rigorosa e disciplinada.
O desafio é, portanto, aumentar as Receitas, expandir, em simultâneo com a Estratégia Desportiva acentuada na Cadeia de Valor da sua Formaçāo (recém Campeā da Liga Portugal, bem como nos Escalōes de Sub17 e Sub19, e que lidera o Campeonato de Sub15.)
O Que Seria Realista Ambicionar?
Aqui, precisamos ser honestos e diretos.
Entrar no Top 15 do ranking europeu de EV dentro de 5 a 7 anos é possível para, apenas, o Benfica.
Mas exige decisões que vão muito além do Campo.
Exige uma Visão Estratégica de Clube enquanto Empresa Global de Entretenimento Desportivo.
Exige investimento em Infraestrutura Digital, em Conteúdo, em Marca Internacional.
Para o Porto, a ambição mais realista a médio prazo é consolidar e crescer dentro do Top 30. Aproximar-se do Benfica em EV.
E manter a presença regular nas Fases de Grupo da Champions, que é a única forma de crescer a Receita UEFA que alimenta o Ciclo de Valorização.
O Sporting terá, necessariamente, de encontrar equilíbrio Desportivo e manter o crescimento nas Receitas Comerciais para que tal lhe permita entrar neste Ranking, sabendo que obedece a regras de consistência de Performance muito rigorosas.
O Braga tem feito um trabalho notável. A sua gestão Financeira é elogiada internamente. Mas a escala de Receita e o coeficiente UEFA acumulado ainda não são suficientes para entrar neste universo de análise.
Em termos Globais, para Portugal, exige-se, acima de tudo, que a Liga Portugal evolua o seu Modelo de Distribuição de Receitas Televisivas, o seu Monitoramento e Legislaçāo que obrigue os Clubes a serem tāo rigorosos quanto os melhores do ponto de vista Financeiro, e com condiçōes de trabalho que permitam o desenvolvimento de outras Estratégias que foram até hoje ignoradas, secundárias.
Na grande maioria dos Clubes em Portugal, ninguém discute outras Fontes de Rendimento que nāo sejam a venda de Atletas.
Isto é um problema Sistémico, de Modelo.
Sem a discussāo clara sobre estes temas, os Clubes Portugueses continuarão a ser Fornecedores de Excelência para os Mercados que acumulam Valor.
Mas nāo irāo crescer.
E vamos seguir o discurso de que somos eternamente um “Mercado marginal, porque estamos afastados do centro da Europa” como se tal se tratasse de uma sentença decretada.
Esquecendo, porque convém, que temos Espanha ao nosso lado.
A Pergunta Que Fica
Portugal tem dois Clubes no Top 32 do Futebol Europeu por Valorização.
Isso deve ser visto como uma conquista.
Mérito dos Modelos de gestão do Benfica e do Porto ao longo de décadas.
Mas 1.9% do EV europeu, num País que produz alguns dos Melhores Jogadores do Mundo, é também um espelho de como o nosso Futebol ainda se Financia, ainda se Governa, e ainda se Vende ao exterior.
O talento está cá.
A pergunta é: quando é que a Estrutura vai ao nível do Talento?
O Futebol, em Portugal, é vida.
E é, também, exemplo a seguir para outras Indústrias pelo Valor que cria.
Mas, temos de ter a capacidade de crescer por dentro.
Fonte de dados: Football Benchmark – Football Clubs’ Valuation: The European Elite 2026 (11ª Edição)

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