O Problema que a Janela de Transferências Vai Expor, outra Vez

Com o final dos Campeonatos, o jogo é outro: Janela de Transferências abriu.

E em Portugal, como em toda a Europa, começa o ritual previsível.

Clubes a tentar vender Jogadores.

Muitos deles, que ninguém quer comprar.

Jogadores com salários que o Clube percebe agora não consegue suportar.

Ou nāo quer, porque nāo reconhece valor ao atleta.

Portanto, Contratos que pareciam bons há dois anos e hoje parecem armadilhas.

Tudo isto tem nome. 

Chama-se Players Stuck.

E não é azar. 

É Estrutura.

O Que é “Players Stuck”

É simples de explicar, e existem vários exemplos.

O Clube compra um Atleta no pico de valorização. Paga além da sua capacidade Financeira porque a janela estava a fechar, o treinador quer muito o jogador, e a pressão do momento vence a racionalidade do Longo-Prazo.

Depois, seja porque razāo for (porque podem haver muitas), a Performance não acompanha o preço pago.

Logo, o Mercado não quer pagar o que o Clube pagou.

E agora, há um Jogador com um salário pesado, com Valor de Mercado abaixo do Valor Contabilístico, e sem destino possível que feche as contas.

Não há saída fácil, basicamente.

O Jogador não quer (nem tem que) sair, tem contrato e salário garantido.

O Clube, por seu lado, não consegue vender.

E a massa salarial fica imobilizada. 

Época após época.

Basta pararmos um segundo e analisar, por exemplo, o Chelsea FC e a sua Estratégia de Contractos de Longo-Prazo. 

O que parecia uma manobra inteligente para reduzir os custos actuais (e cumprir com os requisitos do PSR, agora CSR), torna-se um peso enorme no longo-prazo.

Porque Acontece

Falamos muito do sintoma.

Pouco da causa.

A causa não é o Mercado. 

Não é o agente. 

Não é o Treinador que insistiu na contratação.

A causa é, para mim, a Tomada de Decisāo.

Ou, uma decisão tomada sem a pergunta certa.

“Como saímos deste contrato se correr mal?”

Esta pergunta, e outras, deveria ser feita antes de qualquer assinatura.

Tal como nas empresas, existem Frameworks ou Guidelines para Tomadas de Decisāo.

Por exemplo, avançar sobre Produto/Serviço A ou B, as perguntas terāo que ultrapassar o Custo no Curto-prazo e perceber a lógica do momento, as expectativas de Retorno e as Estratégias de Saída possíveis, seja para o bem ou para o mal.

Entenda-se, para o bem: se o Jogador apresentar as Performances que se espera, quais os Mercados onde o vamos apresentar? Porquê? Através de quem? A que Clubes?
E, para o mal: se as Performances forem abaixo do expectável, quais as possibilidades de proteger o Clube? Como?

Na realidade, a maioria dos Clubes compra com uma lógica de esperança:

Se o Jogador render: vendemos com mais-valia.

Se não render: logo se vê.

E, aqui, o ”Logo se vê” tem um custo. 

Mais tarde, ou mais cedo.

O Padrão Que Se Repete

Vamos a exemplos:

O Plantel do Casa Pia 2025/26.

Três Jogadores acima dos 35 anos (acima de 10%). 

Média etária de 27,5 anos, a mais alta do grupo de comparação com os Clubes que terminaram imediatamente acima na Classificaçāo final.

Mais dados importantes: 

O pior ataque do grupo, com apenas 31 Golos Marcados. 

Playoff de Permanência.

Mais importante, apesar das Receitas resultantes de Vendas de Atletas estarem acima de Estoril e semelhantes a Rio Ave, por exemplo, apenas 1 foi realizada durante a Época (Renato Nhaga para o Galatasaray), os dados acima colocam uma camada de pressāo na venda de Atletas durante o Verāo.
A acontecerem, quem serāo? Que idades têm esses Atletas?

Mais, quem os vai substituir?
Quem serāo as próximas Vendas a serem preparadas?

Os Clubes que ficaram acima, Estoril, Alverca, Rio Ave. têm plantel entre 24,4 e 25,1 anos de média.

Não é coincidência.

É o resultado de uma política de Plantel que considera o potencial de Revenda de cada contratação antes da Assinatura.

Aqui, fazendo uma ressalva, porque o Rio Ave pode até nem ser um exemplo perfeito, porque pertence a um MCO com objectivos declarados em Portugal.

No entanto, tudo aqui descrito é factual e, logo, disponível para Análise.

Outro caso, será o Nacional da Madeira.

Apesar de apresentar dados etários e de Performance superiores, por exemplo, aos do Casa Pia, sāo agora 3 anos (desde a Época 23/24, na Liga 2 Portugal) sem um único negócio realizado na Venda de Atletas, segundo o site Transfermarkt.

Sāo 2 anos na Liga Betclic Portugal (Primeira Liga), ambos terminadas em 14o Lugar da Classificaçāo.

A salvo, Desportivamente, mas em sério risco Financeiro e de Sustentabilidade.

O problema é que os elementos nāo estāo separados, sāo cumulativos, dependentes.

Aliás, já vimos isto antes.

Quando não há critério etário.

Quando não há Exit Strategy incorporada.

Quando se compra apenas Experiência e Performance imediata em vez de se comprar Valorização Futura, o Plantel envelhece e, tendencialmente, a massa Salarial cresce.

E na próxima Janela, os Jogadores estão Stuck.

Uma potencial revisāo Contractual tem de ser fortemente considerada nos Clubes, em Portugal.

Nomeadamente naqueles que sāo mais frágeis, dependentes de ciclos contínuos de Processos de Identificaçāo – Aquisiçao – Desenvolvimento – Revenda de Atletas.

Ou, diria, menos flexíveis nas Fontes de Receita (Revenue Streams) disponíveis, e, logo, reféns das mais convenientes (Direitos de TV + Sponsorship + Ticketing + Merchandising + Vendas de Atletas).

Portanto, quase todos os Clubes em Portugal.

O Que os Dados Dizem

O CIES Football Observatory tem uma análise clara.

Clubes com Modelo Sustentável operam com:

  • Média etária entre 25,0 e 26,5 anos
  • 40 a 50% do Plantel na faixa de peak performance (24-27 anos)
  • Máximo 3% de Jogadores acima dos 35 anos

Os Clubes que chegam ao Playoff têm, sistematicamente, desvios nestas métricas.

Não porque os Jogadores mais velhos sejam maus.

Porque juntam algumas características, como serem (tendencialmente) mais caros, têm menos Potencial de Valorização, e quando deixam de render, ficam.

Stuck.

Para nāo mencionar aqueles que, tal como em qualquer empresa e sector, nāo querem necessariamente grandes conquistas, ou alteraçōes. 

Aqueles que sabem que o aumento do ritmo, ou da Competitividade, pode nāo jogar a seu favor.

A Teoria dos Jogos aplicado no Futebol – como mexer as peças pode prejudicar, ninguém se mexe.

O Custo Concreto

O custo de um Jogador Stuck não é só o Salário, nem diz respeito apenas ao critério etário.

Existem diversos exemplos de Atletas Jovens que estāo no mesmo lugar – stuck!

O problema é que ocupam o lugar que podia ser de um Jogador com Mercado crescente.

Alguém que realmente quer desenvolver.

Alguém com fome.

É o Orçamento que imobiliza e que não pode ser reinvestido.

É, também, a mensagem que envia ao balneário: que o Clube não tem critério, tem inércia.

É a Decisão de Recrutamento que na próxima Época volta a ser tomada com urgência, sem Estratégia, com o Mercado a fechar.

E o ciclo que recomeça, sem fim à vista.

A Solução Não é Complicada. É Difícil.

Não é complicada, porque existe.

Mas é difícil quebrar um ciclo que pode ser entendido como Cultura.

Porque “foi sempre assim”.

Antes de qualquer contratação, responder a três perguntas:

1. Este Jogador serve a nossa Competitividade imediata?

2. Tem potencial de ser vendido por mais do que custa a contratar?

3. Se correr mal, qual é o cenário de saída a 18 meses?

No fim, recorda-me as questōes que Sir Alex Ferguson coloca como fundamentais na percepçāo do Treinador, pelo Jogador (“Vai fazer-me ganhar? Vai tornar-me melhor? É leal?).

Aqui, temos de reverter para a Exit Strategy, naturalmente.

Uma coisa é certa: se não há resposta clara às três, não é o perfil certo.

Recrutamento sem Exit Planning é especulação.

E os Clubes Portugueses pagam caro por especulação.

Todos os anos.

A Pergunta Para Deixar

Quando o teu Clube fecha a Janela de Transferências em Setembro, quantos Jogadores vão ficar que não deviam?

E quantos foram contratados sem que alguém fizesse as perguntas certas?

Mais importante, quais os Atletas vāo garantir que o ciclo se possa repetir com sucesso Desportivo e Financeiro?

E os Treinadores sabem disso?

A próxima conversa é sobre como evitar que isto aconteça. 

Squad Planning como Disciplina Estratégica.

Fontes: Tranfermarkt (website)

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