Quando o problema não é o Mercado.
A maioria dos Clubes, e dos Directores Desportivos, chega ao Mercado de Verão sem um plano definido.
Escrito.
Apresentado.
Discutido.
Chegam, sim, com ideias.
Com conversas.
Com Jogadores que “aparecem” via agentes.
Com pressão do Treinador para resolver três posições em seis semanas.
Isto, para quem tem Treinador.
Irei desenvolver este tema num artigo separado.
De qualquer maneira, isto não é Squad Planning, ou Planeamento de Plantel.
No máximo, é uma Gestão de Crise com Orçamento.
Squad Planning deveria começar muito antes disso, no Mercado de Verāo anterior, e em Janeiro, no final da Janela de Inverno.
Nesta Fase inicial, o Clube tem perfeita noção do Processo Contratual dos seus Atletas.
Seguindo, de forma geral, este Planeamento começa quando esse Mercado fecha, uma vez que existe estabilidade no Plantel até ao final da Época.
É um Processo anual, revisto em Janeiro.
Mas, Estruturado.
Repetível.
E, que não depende de inspiração, mas de Sistema.
FASE 1 — O Review do Plantel Actual
Antes de pensar em entradas, o Clube tem de perceber o que tem.
O que os dados dizem que tem.
Aqui, quatro variáveis definem o Estado de Saúde de um Plantel:
Idade: Qual é a distribuição etária? Tens Jogadores no Pico (24-28), em Desenvolvimento (18-23), em fase de desvalorização de Mercado (29+), onde o Custo Salarial começa a não acompanhar a descida de Valor, ou focado em Experiência (32+)? Um Plantel inexperiente disfarçado de “em Potencial”? Ou tens um Plantel envelhecido disfarçado de experiente?
Contracto: Quantos Jogadores ficam livres no próximo Verão? E no seguinte? Que tipo de controlo temos sobre a sua situaçāo contractual? O que o Mercado diz deles? Uma coisa é certa: um Plantel com 40% dos Contractos a terminar em simultâneo é uma bomba de Gestão.
Aqui, uma nota crítica: Janeiro determina igualmente que Atletas em fim de Contracto são livres para assinar por qualquer Clube para a Época seguinte.
Sem prejuízo para os próprios, mas sem contrapartidas para o Clube original.
Este elemento tem de ser monitorizado nas Épocas anteriores e parte dos Relatórios apresentados, nomeadamente do Relatório de Final de Época, a partir do momento em que o Atleta entra nos últimos 24 a 12 meses de Contracto, dependendo do Clube.
Valor de Mercado: O Valor do Plantel subiu ou desceu face ao ano anterior? Jogadores que Valorizaram são Activos a gerir. Jogadores que desvalorizaram rapidamente são um sinal de alerta: lesões, rendimento, idade.
Minutos: Quem jogou? Quem não jogou? Um Jogador com menos de 30% dos minutos disponíveis é um potencial problema com Salário, mais tarde ou mais cedo. Ou é um Talento subaproveitado. Temos de saber qual dos dois é, e agir de acordo.
Estas quatro variáveis em conjunto dão uma fotografia honesta do Plantel.
FASE 2 — O Mapa de Decisões
Com a fotografia feita, cada Jogador do Plantel cai numa de quatro Categorias:
- Core: Intocável. Constrói à volta dele.
- Rotação: Necessário. Mas substituível se aparecer uma oportunidade de Valorização.
- Saída Planeada: O Clube sabe que vai sair. A questão é quando e por quanto.
- Saída Urgente: Contracto longo, Rendimento baixo, sem Mercado aparente. No fundo, é o Jogador do artigo anterior, aquele que está Stuck.
Este Mapa é uma Ferramenta de Gestão. Cada Categoria exige uma Estratégia diferente, de Comunicação com o Jogador, de activação no Mercado, de timing de decisão.
Um Director Desportivo que não tenha este mapa feito em Fevereiro, chega a Junho a reagir ao que o Mercado lhe propõe.
FASE 3 — As Necessidades
Só depois de saberes o que temos e o que vai sair é que definimos o que precisamos.
Não apenas por posição, mas por Perfil, pelo Planeamento que existe (Exit Strategy).
Esta diferença é crítica.
- Clube não Preparado: “Precisamos de um Avançado” é uma necessidade de Posição. Pode ser preenchida por cinquenta Jogadores no Mercado.
Clube Preparado: “Precisamos de um Avançado com Perfil de Pressão alta, entre 21-25 anos, com Valor de Mercado abaixo de €2M, e capacidade de Valorizar num contexto de posse.” Aqui, é uma necessidade de Perfil e, melhor ainda, reduz o Mercado para dez Jogadores. E desses dez, cinco estão disponíveis. E desses cinco, um ou dois cabem no Orçamento. - Clube não Preparado: “Vamos vender 3 Atletas” é o reflexo (provável) de uma Estratégia, Recrutamento e Mercados de sucesso, certo? Mas quem são os próximos?
Clube Preparado: “Precisamos de um Plantel com diferentes Perfis para Exit Strategy, uns com Plano de venda entre 1 a 3 anos, outros entre 3 a 5, de forma a alimentar o Clube com uma pipeline consistente de Talento para Revenda.” Aqui, é um Planeamento coerente, sustentável e replicável. Melhor ainda, as aquisições são, maioritariamente, de Atletas mais novos e, consequentemente, mais baratos.
É aqui que o Departamento de Recrutamento começa a trabalhar, e a fazer sentido.
A deixar de ser encarado como uma despesa, mas sim como um investimento.
FASE 4 — O Ciclo de Mercado
Com o Mapa feito e os Perfis definidos, o Mercado deixa de ser reactivo e passa a ser Estratégico.
Entradas e saídas são equações, decisões ponderadas e suportadas por Data.
Cada saída liberta Orçamento, Posição, e Minutos.
Cada entrada ocupa os três.
Um Clube, e um Director Desportivo têm que gerir esta equação em tempo real, de forma consciente e planeada.
O Ciclo saudável tem três momentos:
- Pré-Mercado: Conversas abertas com Jogadores de Saída Planeada. Activação discreta de Contactos para Perfis prioritários. No entanto, sem Propostas formais. Apenas recolha de mais informação e dados.
- Abertura do Mercado: Execução do Plano. As surpresas acontecem (e vão acontecer, naturalmente) mas têm de ser geridas dentro de uma Framework, não em substituição dela. O pensamento é sempre o de ter um Plano geral para o Plantel, porque se houver uma ou duas surpresas, a reacção será igualmente cirúrgica. Sem Planeamento, são 24 ou 25 surpresas potenciais.
- Fecho do Mercado: Review imediato. O que ficou por fazer? Porquê? Qual a composição final do Plantel, dentro das Categorias que falámos? Quem entra em zona de Renovação Urgente? Que Mercados têm de ser activados para a próxima janela? Por quem? Esse diagnóstico alimenta o Ciclo seguinte.
E agora, o RSTP 2027 muda tudo isto?
Não muda o Processo.
Muda o Custo de ignorá-lo.
Três implicações directas para o Squad Planning a partir de Janeiro de 2027:
- Rescisões vão custar mais. A Compensação mínima garantida é o Valor residual do Contracto. Ou seja, um Jogador na Categoria Saída Urgente com dois anos de Contracto e €4.000/mês de Salário custa pelo menos €96.000 para sair. Portanto, de agora em diante, estes dados têm de estar no Planeamento financeiro, actualizados automaticamente, para não aparecer como surpresa em Junho.
- Contractos Sub-18 até 5 anos. Para Clubes com Academia relevante, capacidade de formalizar acordos com Atletas jovens, isto é uma alavanca nova. Uma nova forma de protecção, e bem. Jogadores formados internamente podem ser vinculados por mais tempo. Mas, em simultâneo com essa protecção, também aumenta o risco — pelo que exige uma Política clara de Contratação jovem: quem vincula, quando, até quando e em que condições.
- Jogadores vão poder negociar participação na Transferência. A partir de 2027, um Jogador pode exigir percentagem da sua própria Venda como condição contratual. Além de colocar o papel dos Agentes em causa, obrigando-os a repensar a sua utilidade e acréscimo de Valor, muda, na sua base, a Estrutura de Incentivos. Um Jogador com 5% da sua Transferência tem interesse em Valorizar, e em sair para um Clube maior. O Clube, e o seu Director Desportivo, têm de gerir essa dinâmica desde o momento em que assina o Contracto, e tê-la em consideração na transparência exposta quando surgem Clubes interessados. Esta medida coloca pressão em todos os Stakeholders, o que pode ser definitivamente positivo, porque a Estrutura de Incentivos está orientada para o aumento da cadeia de Valor. Por outro lado, pode ser usada de forma obscura.
Como em tudo, estas medidas têm de ser monitorizadas.
De forma geral, parecem positivas e com uma Estrutura de Incentivos bem orientada.
Mas, vamos esperar para ver como são implementadas.
Conclusão
Squad Planning não é uma tarefa de Junho.
É um Processo anual com quatro Fases, quatro variáveis, e um Ciclo de Mercado que começa muito antes do Mercado abrir.
Um Processo com Relatórios constantes, monitorização constante.
Porque, como falámos anteriormente, as surpresas vão aparecer.
Os Clubes que chegam ao Verão com um Plano têm vantagem Competitiva sobre os que chegam com intuições.
A partir de 2027, essa vantagem tem um Custo adicional para quem não Planeia.
O Mercado não perdoa, e continuará a perdoar cada vez menos, a falta de Preparação. Aliás, irá cobrar mais caro.

Deixe um comentário