No texto anterior, analisámos onde Portugal está no Mapa do Futebol Europeu.
Hoje, entramos na realidade nacional.
Porque há um problema ainda maior, e mais urgente, dentro de casa.
A suposta falta de Competitividade das equipas Portuguesas na Europa, tem razōes para existir.
Mais uma vez, razōes Sistémicas.
De Modelo.
Ou falta dele.
O que dirá um Clube de meio da tabela em Portugal para os nossos grandes ?
Vamos descobrir hoje, mas atençāo: ninguém está isento de culpas!
O Mesmo Campeonato. Duas (ou três) Realidades Completamente Diferentes.
Para conseguirmos analisar dados concretos (e públicos), temos de recuar 2 anos.
Na Época 2023/24, os 18 Clubes da Liga Portugal tinham um Orçamento total de cerca de €400 Milhões.
Parece muito.
Até percebermos a distribuição.
- Benfica: €115M
- FC Porto: €90M
- Sporting CP: €65M
- Braga: €38M
Até aqui, €308M.
De 18 Clubes.
Os restantes 14 Clubes (juntos) tinham menos de €100M de Orçamento total.
Vamos a partes:
- Vitória de Guimarães: €18M. O maior fora dos 4 grandes.
- Famalicão: €10M.
- Gil Vicente: €7.5M.
- Casa Pia, Rio Ave, Arouca: €5M cada.
- Boavista e Moreirense: €4.5M cada.
Estamos a falar do mesmo Campeonato.
Com as mesmas obrigações Competitivas.
Com as mesmas exigências de Licenciamento UEFA.
Com os mesmos custos de Estrutura Profissional.
Na teoria, claro!
Porque, como sabemos, na Prática, é impossível fazer o mesmo com menos de metade, ou menos de um décimo do que outros.
E, mesmo assim, roubam-se pontos!
O Paralelo com a Europa — e Porque Deve Preocupar-nos
No post anterior, explorámos o conceito de Múltiplo de Valorização, a relação entre o Enterprise Value (EV) de um Clube e as suas Receitas.
O Real Madrid opera a 6.7x as suas Receitas.
O Benfica opera entre 2.6x e 4.0x.
O fosso parece grande.
Mas agora olha para o fosso interno.
O Governo Português reconheceu oficialmente no Decreto-Lei que determinou a Centralização dos Direitos Televisivos que a diferença entre o Clube que mais recebe e o que menos recebe em Direitos de TV é de aproximadamente 15 vezes.
Quinze vezes!
O Benfica recebe hoje pelos Direitos Televisivos mais de €50M por Época.
Um Clube do meio da tabela recebe menos de €10M.
Há Clubes que recebem €3.5M a €5M.
O Problema: os Direitos de TV têm um peso diferente nos Orçamentos dos Clubes, sendo que a maioria (e aqui entra a culpa de TODOS), têm um peso muitas vezes superior a 70% ou 80%.
Se aplicarmos a lógica dos Múltiplos de Valorização ao contexto interno Português, estamos perante uma distorção ainda mais grave do que a que existe entre a Liga Portugal e a Premier League.
E ninguém fala disto com a seriedade que merece.
O Modelo que Ninguém Quer Admitir
Vamos tocar na ferida!
Há anos que fiz a minha Tese de Mestrado sobre este tema: a Rentabilidade dos Clubes de Futebol em Portugal, entre 2015 e 2018.
Apesar da minha perspectiva sobre o tema ter mudado nos fundamentos, a conclusão central não mudou drasticamente:
- A grande maioria dos Clubes Profissionais em Portugal começa o ano com um défice Estrutural.
Como funciona o Modelo?
Pedro Alves, Diretor Desportivo do FC Alverca, descreveu-o com clareza numa entrevista recente:
Um Clube médio da Liga Portugal tem um Orçamento que ronda os €10 a €15M.
As Receitas garantidas à partida?
→ Direitos Televisivos: ~€4M
→ Patrocínios base: ~€1-2M
→ Total garantido: €6 a €7M
O que falta: €4 a €9M.
Que têm de ser encontrados.
E onde?
Na venda de Atletas.
Não como Estratégia de Negócio Planeada a Longo prazo (o que seria interessante), mas como necessidade.
Como forma de colmatar de um défice que já existia antes da Época começar.
Pergunta: podemos chamar a isto um Modelo de Negócio? Difícil.
Sustentável? Impossível.
É, sim, uma aposta.
Uma aposta num Mercado que nāo vamos controlar, num futuro promissor que uma lesāo ou um ano menos feliz podem comprometer.
Todos os anos, estes Clubes entram na Época a contar com Receitas que ainda não existem, provenientes de ativos que podem ou não ser vendidos, pelo valor certo, no momento certo.
Se não acontece: o Clube acumula dívida.
Se o Clube desce de Divisão: o colapso pode ser total.
E o mais preocupante?
Segundo o estudo da EY para a Liga Portugal, as transferências de Jogadores valem cerca de 30% da receita total do Futebol Português, e raramente ficamos abaixo dos €300M/ano em Receitas desta natureza.
É um número impressionante.
Mas é também o sinal mais claro de que o Modelo está construído sobre um Castelo de areia.
A Questão das Fontes de Rendimento (Revenue Streams): O Que Está a Ser Feito?
Existem muitos tipos de Receitas possíveis para um Clube de Futebol.
Assim, o Clube as queria trabalhar!
Direitos TV. Vendas de Atletas. Bilheteira. Merchandising. Naming Rights do Estádio. Publicidade. Espectáculos e Eventos. Tours. Academias de Futebol. Quotas de Sócios. Patrocínios. Competições próprias.
A questão que se impõe é simples:
- Quantas destas fontes são realmente exploradas pelos Clubes Portugueses, de forma regular e consistente?
A resposta, na maioria dos casos, é desconfortável.
Há bons exemplos.
Existem mesmo.
O Paços de Ferreira teve, há alguns anos, um Departamento de Marketing que era citado como referência no contexto nacional: criatividade, proximidade à Comunidade, comunicação diferenciadora.
Nāo foi consistente (porque nāo chega fazer isso 1 ano), e hoje o mesmo Clube está na Liga 3.
O GD Estoril Praia, com Pedro Alves como Diretor Desportivo na altura da minha Tese, conseguia vender Atletas todos os anos, mesmo nas Épocas em que competia na Liga 2.
Não era sorte, nunca é. Mais uma vez: Modelo & Método.
Mais recentemente, a UD Leiria e o Académico de Viseu são exemplos de Clubes que conseguiram aproximar-se das suas Comunidades de forma genuína e consistente, criando vínculos que transcendem o resultado Desportivo.
Conseguirāo, principalmente o UD Leiria, manter essa aposta mesmo quando os Resultados ainda nāo chegaram?
Por outro lado, temos exemplos do que acontece quando o Modelo falha.
O CS Marítimo apresentou, na mesma Época da minha análise, anos consecutivos sem capacidade de vender Atletas. Sem essa receita, e sem alternativas estruturadas, a espiral de dificuldades torna-se rapidamente difícil de reverter.
Logo, nāo podia ser uma novidade que o Clube descesse de Divisāo e tivesse de sofrer uma intervençāo profunda.
A Promoçāo foi, agora, conseguida e o Clube estará (novamente) na Liga Portugal.
O que vamos ter no futuro?
A pergunta é sempre a mesma:
Porque não conseguimos manter estes bons exemplos de forma consistente?
A Centralização dos Direitos TV: Uma Oportunidade, mas Não a Solução
Em Abril de 2026, a Liga Portugal aprovou, com mais de 90% dos votos, o Modelo de Centralização dos Direitos Audiovisuais, a implementar a partir de 2028/29.
O valor estimado do bolo: €225M por Época.
Comparado com o Modelo actual, onde o total ronda os €150 a €170M distribuídos de forma extremamente desigual, é um crescimento.
E a chave de Distribuição proposta, pelo que nos é dado a perceber do Modelo, é mais equitativa:
- 33% distribuído de forma igualitária por todos os Clubes.
- 44% baseado em Resultados Desportivos e Histórico.
- 18% em Audiências, Matchday e Assistências.
Importa ser claro sobre o voto contra do Benfica.
Faz sentido, atençāo, se olharmos unicamente do ponto de vista do Benfica.
Um Clube que recebe hoje ~€50M em Direitos TV individualmente vai, na Centralização, receber menos.
É uma perda factual para o Clube.
É uma decisão que cada um pode avaliar à sua forma.
Se é um Clube com capacidade para gerar o valor em falta de outras formas? Sim, provavelmente nāo haverá mais nenhum em Portugal com tanto potencial.
Mas, nāo deixa de ser factual que o valor é menor.
Como disse, cada um analisa da sua perspectiva.
O que importa perceber, e quero trazer para discussāo, é que a Centralização, por si só, não resolve o problema Estrutural.
Porque mesmo que os Clubes mais pequenos passem a receber €8-10M em Direitos TV em vez de €4-5M, continuam a ter Orçamentos de €10-12M com Custos que não param de crescer.
E, tendo em conta que a tendência de gastar mais do que se tem existe há anos, o risco de manter o Modelo existe.
A Centralização é um passo.
Não é um fim, uma Estratégia.
O Problema Mais Profundo
Entramos, portanto, no grande ponto desta discussāo!
Se entendemos que a Centralizaçāo nāo é mais do que um meio para tornar a Indústria mais forte, no seu geral, o que falta?
Na grande maioria dos Clubes em Portugal, ninguém discute outras Fontes de Rendimento que não sejam a venda de Atletas.
As reuniões (independentemente dos intervenientes) focam-se em discussōes sobre o Plantel, o Mercado de Transferências, e os Objectivos ou Resultados Desportivos.
Raramente falam de Modelo de Negócio.
Raramente falam de como vamos Monetizar o Estádio nos 340 dias em que não há jogo.
De como vamos criar uma Academia de Futebol que gere Receita e Reputação, simultaneamente.
De como transformar a relação com os Sócios numa Fonte de Receita previsível, e Sustentável.
De como atrair uma Proposta de Naming Rights que Financie Infraestrutura sem comprometer Identidade.
Há uma tendência crescente, e muito positiva, de Grupos Financeiros Internacionais com presença em múltiplos Clubes entrarem em Portugal.
O Moreirense com o Black Knight Football Club é um exemplo recente.
Ou o Estoril Praia, o Gil Vicente, o FC Alverca, ou o CD Tondela.
Portugal tem tudo para atrair mais deste tipo de Investimento: Recursos Humanos de elevadíssima qualidade no Treino e na Metodologia.
Tem, também, um historial impressionante na Produção, Desenvolvimento e Venda de Talento. Clima, Língua de relativa fácil adaptaçāo para países sul-americanos, qualidade de vida, e a capacidade natural Portuguesa de acolher.
Mas isso, por si só, nāo resolve.
E vale a pena perguntar: Porquê?
A resposta, pelo menos em parte, pode estar nestes Grupos colocarem pessoas que nāo estāo minimamente ligadas ao Futebol, ou ao Futebol em Portugal, ou mesmo na falta de Transparência, de Monitoramento e Rigor Financeiro por parte das Entidades Reguladoras das Competiçōes e do Desporto.
Ou, até de uma Narrativa clara sobre o que é o Futebol Português enquanto Activo de Investimento.
Estamos abertos ao Investimento Privado, estrangeiro ou nacional? Ok!
Mas porquê e para quê?
Com que Objectivos?
Supervisionado, e Operacionalizado por quem?
O Que Precisamos de Discutir
O Futebol Português ultrapassou, pela primeira vez na Época 2023/24, €1,073 Mil Milhões em Receitas Totais das SAD.
É um número histórico.
Merece ser celebrado.
Mas 30% desse valor vem de Transferências.
Dados mais recentes apontam para mais de 50% das Receitas serem gerados através de Transferências.
Mais, a Distribuição interna é tão desequilibrada que temos 14 Clubes num Campeonato Profissional a Operar com Orçamentos que dificilmente sustentam uma Estrutura minimamente Profissional.
A Liga Portugal a Duas Velocidades é um problema de Modelo.
E enquanto não for tratado como tal, com seriedade, com Dados, com Estratégia, e Profissionais das respectivas áreas continuaremos a celebrar os €1 Mil Milhões enquanto ignoramos que a maioria dos Clubes entra em cada Época já em défice.
O Talento está cá.
A Paixão está cá.
Os Recursos Humanos estão cá.
O que falta é a Coragem de olhar para os números, e agir em conformidade.
Fontes: Football Benchmark European Elite 2026 · Jornal Record (Orçamentos I Liga 2023/24) · Decreto-Lei nº 22-B/2021 · EY / Liga Portugal — Estudo do Futebol Profissional · Deloitte Football Money League 2026 · Entrevista zerozero.pt a Pedro Alves (FC Alverca)

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